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Por Yuri Hildebrand

Divulgação/Habbo

O que é Metaverso? O termo ganhou destaque no mundo da tecnologia após a mudança de nome do grupo Facebook, que virou Meta e gerou expectativa sobre o que seria essa realidade “alternativa” no meio digital. A verdade é que o conceito de Metaverso já existe há algum tempo, sobretudo nos games. Jogos como Habbo e Club Penguin, que fizeram muito sucesso no final da década de 2000, já eram plataformas de relacionamento no mundo digital com pegada imersiva, ambientes virtuais e interações de pessoas e até empresas.

Atualmente, existem exemplos de peso que seguem essa mesma proposta, como GTA RP Cidade Alta e PK XD, game focado no público infantil disponível para celulares Android e iPhone (iOS). O TechTudo conversou com Charles Barros, criador do PK XD e da desenvolvedora Afterverse, para entender o conceito de Metaverso e sua relação com o mundo dos jogos.

PK XD e seu 'vovô' Habboo são exemplos de Metaverso no mundo dos games; conceito é antigo, mas pode ganhar muito nos próximos anos — Foto: Divulgação/Afterverse

Metaverso já existe?

O Metaverso ganhou destaque com a mudança de nome do Facebook para Meta, mas é algo mais antigo. A discussão, para muitos especialistas, remete às suposições do que seria a Internet lá em 1970. Segundo o portal Wired, por exemplo, um exercício interessante é substituir o termo “metaverso” por “ciberespaço”, o que praticamente não mudaria o sentido das frases a respeito do conceito atual.

Por definição, segundo Charles Barros, criador do PK XD, o Metaverso é um “universo online onde as pessoas podem se encontrar, socializar, resolver problemas, etc.”. A diferença entre a proposta em jogos é a fantasia ou o role-playing, que, na proposta de trazer esse ambiente digital para as relações reais, não estariam necessariamente presentes.

Metaverso imaginado por Mark Zuckerberg teria proposta um pouco diferente de games do tipo — Foto: Reprodução/YouTube (Meta)

A ideia de expandir as interações para um espaço virtual é bastante presente nos jogos. Desde MMORPGs como Ragnarok e Tibia até Second Life, Habbo e Club Penguin, mais focados nas relações em si, os usuários entram em um universo digital e vivem ali uma realidade “paralela” ligada à vida real de alguma forma. Inclusive, a proposta de RPGs é bastante utilizada como base na criação desses games.

Charles aponta uma “tradução” dos sistemas de personagens e runas para desenvolver algumas características em games role-playing. “Enquanto RPGs têm pontos para subir de nível e melhorar seu personagem, no Metaverso há o sistema de profissões. A ideia é tornar tudo mais palatável para o usuário”, conclui.

Em títulos mais recentes, já contando com tecnologias mais avançadas para atualização de mapa, avatares e outros aspectos dos games, também é possível encontrar a presença de marcas relacionadas ou não a esse mundo.

iFood chegou ao GTA RP (Cidade Alta) com ação que envolvia entregas, skins e até códigos na vida real — Foto: Divulgação/iFood

É o caso dos servidores de GTA RP, que, em exemplos como o Cidade Alta, trazem parcerias com empresas da vida real, como aconteceu com iFood, Submarino, entre outros nomes do mercado. Aliás, espaços como supermercados e shoppings, presentes no jogo, facilitam a entrada dessas marcas, algo que o Metaverso, em sua ideia atual, já está incorporando.

Novas tecnologias devem ajudar

A relação das pessoas com a ideia de Metaverso vai ganhar muito com o avanço da tecnologia nos próximos anos. Segundo Charles, a chegada de recursos como o 5G vai ajudar desenvolvedores a manterem o universo sempre atualizado. Ele afirma que a equipe da Afterverse conseguiu observar a importância desse ponto ao desenvolver PK XD, que começou como um ambiente estático e agora caminha para algo mais próximo do tempo real.

“5G vai ser excelente pra fazer esses universos. Diferente de um jogo normal, (o PK XD) é um mundo em constante mudança. Hoje fazemos por atualização: a cada duas semanas, o game tem updates relacionados, e o mundo real não é assim: está em constante mudança.”

Metaverso também vai permitir o consumo de shows e filmes com amigos em uma realidade virtual (o que já acontece em diversos jogos) — Foto: Divulgação/Meta

Apesar disso, a distribuição desigual das tecnologias no Brasil pode ser um entrave para o desenvolvimento do Metaverso por aqui. Charles citou o contraste entre a forte presença do 4G no Sudeste e o sinal de 3G, ainda dominante em diversas regiões do país. Dessa perspectiva, o conceito fica ainda mais distante.

Mas, além das melhorias na transmissão de dados que o 5G vai proporcionar em um futuro próximo, o desenvolvimento de ambientes virtuais também precisa atentar ao planejamento. Pegando o exemplo do PK XD, Charles destaca pontos como a criação de um calendário avançado para novos conteúdos, criação de conteúdos para expandir o mundo do game, entre outros pontos, que devem sempre seguir o fluxo de atualizações cada vez mais constantes.

Celular é a principal plataforma utilizada no Brasil para jogar; games baseados em Metaverso ganham bastante com foco em mobile — Foto: Divulgação/Samsung

Outro ponto importante na implementação do Metaverso através de jogos como o PK XD é a plataforma utilizada. A escolha da Afterverse por dispositivos mobile tem um motivo bem desenhado: atualmente, o celular é o produto eletrônico mais presente nas residências brasileiras. Em 2020, por exemplo, o celular foi a plataforma mais utilizada para jogar no país, com 86,7% dos usuários, segundo a Pesquisa Game Brasil do mesmo ano.

“Hoje, as empresas deveriam estar focando em consolidar o maior número de pessoas no Metaverso. Para isso, não há plataforma mais abrangente que o celular: todo mundo tem e consegue jogar com filho, parceira, parceiro, etc.”

Segundo Charles, isso não acontece da mesma forma com um console ou computador, por exemplo, já que nem sempre há dois ou mais disponíveis em uma mesma casa para aumentar o número de jogadores por residência. Dessa forma, o próximo game da Afterverse também será voltado para dispositivos mobile.

Realidade Virtual já é algo presente no mercado, e mais avanços da tecnologia podem facilitar a migração para um Metaverso — Foto: Divulgação/Meta

O processo de “adequação” do público a um espaço digital para levar as relações interpessoais também deve ganhar muito com a Realidade Virtual. O Meta (Facebook) falou disso ao apresentar o novo nome, e diversas fabricantes já trabalham em óculos e headsets RV, que vão permitir uma imersão ainda maior a esses ambientes virtuais. De acordo com Charles, isso vai facilitar a compreensão de Metaverso por parte das pessoas:

“Uma coisa é olhar na janelinha do celular e conseguir interpretar uma vida, o que depende do esforço em enxergar uma outra realidade. Os óculos de Realidade Virtual facilitam muito o role-playing, tirando a parte artificial que você precisa compensar com a sua mente.”

Ambiente a mais para o mercado

Além da diversão, jogos como PK XD, GTA RP e outros baseados na ideia de Metaverso, permitem a existência de um mercado ligado ao jogo, mas também ao mundo real. No caso do game da Afterverse, Charles citou a entrada de empresas como Reserva Mini e Pampili, marcas de roupas que oferecem suas peças no jogo, além da Riachuelo, que trouxe uma coleção de PK XD na vida real.

Outra marca que apareceu em PK XD foi o iFood, com entrega de pizzas, algo semelhante ao que aconteceu no servidor Cidade Alta de GTA RP. A ação, inclusive, colocou os próprios jogadores para entregar pedidos pelo mapa, com direito uniforme, mochila do app de delivery e cupons para usar na vida real.

Essa interação entre o digital e o real é uma das bases esperadas para o conceito de Metaverso, mas não necessariamente trazendo a parte ficcional de role-playing. Um caso recente envolvendo a criação de um espaço digital mais “sério” foi da TIM. A gigante do mercado de telefonia abriu uma loja na plataforma Cripvoxels, com exposição de produtos e oferta de NFTs, entre outras atividades. Vale lembrar que a iniciativa foi bastante criticada nas redes sociais pela pegada arcade utilizada no visual.

Afterverse, PK XD e projetos futuros

Além de tratar do conceito em si, o papo com Charles Barros também envolveu o próprio PK XD e a Afterverse, desenvolvedora da Movile criada já pensando nesse foco em Metaverso. Segundo ele, o foco não é exclusivo no gênero, mas há projetos a caminho com essa mesma pegada. O próximo trabalho da empresa, por exemplo, seguirá a lógica de Metaverso, mas será um produto voltado para um público mais velho, diferente do primeiro game.

PK XD traz universo "paralelo" com interações pessoais, ações de marcas e minigames, entre outros exemplos — Foto: Reprodução/Tais Carvalho

PK XD surgiu meses antes do início da pandemia da Covid-19, quando as pessoas precisaram se isolar para diminuir os impactos do novo coronavírus.

“Com as pessoas isoladas, a possibilidade de se encontrar e fazer amizades foi retirada da gente, e o PK XD acabou ajudando bastante nesse período difícil. Mesmo depois, com a melhora da pandemia, a aderência segue crescendo cada vez mais.”

Um diferencial do título frente aos concorrentes (entre eles, Roblox) é o incentivo à presença de criadores de conteúdo na plataforma. Dessa forma, os usuários podem interagir “diretamente” com os avatares de nomes reconhecidos, como é o caso do Lucas Netto. No game, os bonecos ganham um selo de autenticidade, garantindo que aquele é a pessoa de fato.

Além disso, outdoors dentro do mapa de PK XD mostram vídeos desses criadores, aproximando o público do que está sendo produzido. Do mesmo jeito, acontece o caminho inverso: nomes importantes presentes no jogo acabam ensinando a comunidade a participar desse universo, estimulando o role-playing, essencial para a experiência.

Com informações de Wired

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